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A Produção e Comércio da Carne Bovina no Mundo

Já torturei muitos amigos do meu amado Portugal com esse gráfico, onde apresento projeções da produção de carnes por espécies até 2050.

Gráfico I

É visual a perda de espaço da carne bovina em relação aos monogástricos, principalmente em relação à carne de aves. Seria de desanimar se não considerarmos a afirmação do brilhante diplomata, ministro da economia e professor Roberto Campo, ativo nas décadas de 60 a 90 e que dizia: “as estatísticas são como o biquíni. Mostram muito, mas escondem o essencial”.

Escondido nesse gráfico está o fato de que a produção e consumo de todas as carnes cresceram de 1960 a 2010 mais de 335% (bovina 150,3%) contra um crescimento demográfico de 130,1%. E que de 2010 a 2050 crescerão mais 78,4% (bovina + 39,0%), acima do crescimento demográfico mundial projetado em 40,4%.

Isso significa que desde 1960 aumentamos a disponibilidade de carnes para a população mundial em 228,1 milhões de toneladas (+40,8 MM t de carne bovina). Para infelicidade geral de vegetarianos e veganos, que se consideram os novos evangelistas, de 2010 a 2050 disponibilizaremos mais 232,3 milhões de toneladas de carnes para o consumo mundial (+ 26,4 MM t de carne bovina).

Essa magnífica expansão que tirou o mundo de um vegetarianismo econômico e que continuará universalizando o consumo de carnes até 2050 pode ser apreciada na Tabela I.

Tabela I – Evolução da Produção Mundial de Carnes por espécies – 1960 a 2050 

O crescimento da produção mundial de carnes das três principais espécies nos seis decênios avaliados (cf. Tabela II e Gráfico II) demonstra que a carne bovina cresce menos que as de suíno e principalmente aves. Entretanto, as projeções para o decênio 2018-2027 mostram a carne bovina retomando seu crescimento a dois dígitos, o que é sem dúvida uma estimulante notícia.

Tabela II – Crescimento da Produção Mundial de Carnes, % e em 000 de toneladas, das principais espécies

Gráfico II – Crescimento % da Produção Mundial de Carnes das Três Principais Espécies, por decênios

O menor crescimento da carne bovina explica-se por esta espécie exigir mais recursos naturais em sua produção do que as outras duas espécies. Boi é o animal que mais exige recursos naturais na sua criação. A carne bovina se tornará um produto de luxo (músculos), salvo nos produtos industrializados, que serão caros, mas acessíveis.

O conceito de acessibilidade compreende encontrar facilmente para consumir e ter os meios de consumir. As projeções do Banco Mundial, do FMI e de muitos outros organismos internacionais indicam que haverá uma expansão discreta da renda per capital na maioria dos países, com renda inferior a US$ 10,00/capita/dia. Esse aumento de renda será aplicado na melhoria da alimentação. Comer melhor significa comer mais produtos de origem animal, principalmente carnes.

A carne bovina é sempre visualizada como a categoria top das carnes, sendo compreensível que seu consumo per capita seja menos difundido que as outras carnes.  Os extratos de menor renda acedem a esse consumo de forma menos frequente e optam por cortes tidos como menos nobres. Há um ditado dos gaúchos brasileiros que diz que “em tempos de dificuldades carne de pescoço é filé mignon”.

Já nos extratos de renda superior a US$ 50,00/capita/dia há uma tendência ao consumo de conceitos e atributos. Para ditos segmentos no Brasil, não basta mais um belo, macio e suculento corte de carne. Os açougues são substituídos por boutiques de carnes, nos varejos de maior renda há diferenciação entre as raças bovinas de um mesmo corte e já há criadores que entregam na casa do consumidor cortes originais, de um animal de menos de 18 meses de idade, da raça tal e qual e as peças suficientes para duas pessoas custam o equivalente ao gasto de um comensal em um bom restaurante de carnes. Na maioria dos países aqueles que dispõem de uma renda acima do patamar de US$ 50,00/capita/dia gastam menos de 20% do orçamento doméstico em alimentação e o fato de um corte premium ter preço elevado impacta muito pouco seus custos de alimentação.

As projeções indicam um crescimento de 15,8% para a produção e 15,5% consumo de carne bovina a 2027 (cf.Gráfico III). As importações de carne bovina crescerão 16,4% no próximo decênio, graças ao aumento das importações dos países em desenvolvimento, principalmente da Ásia, onde o Planeta China teve e terá um papel preponderante.

Gráfico III – Balanço Mundial da Carne Bovina – Projeções a 2027

A Tabela III apresenta um sumário do balanço da carne bovina não só a nível mundial como pelas regiões do mundo. A Ásia surge como o grande vetor do consumo, que passará de 21,2 milhões de toneladas para 26,2 MMt, um aumento de 5.0 MMt, das quais 6,1 MMt serão supridas por importações com um notável aumento de 1,35 MMt sobre seus níveis atuais de compras externas.

Os números da América Latina e África também impressionam, sendo que aquela consolidará sua posição de grande supridora mundial de carne bovina. Ambas as regiões terão expressivos crescimento de consumo.

Tabela III – Sumário da Carne Bovina – Mundo e Regiões – Produção, Importação e Exportação – Toneladas e ∆% Crescimento Anual

 

Os números apresentados neste artigo são da OECD-FAO e apresentam discretas diferenças em relação às projeções da Comissão Europeia[1]. Não invalidam os números expostos que nos permitem comparar a posição da EU-28 com os continentes e outras regiões mundiais.

Os indicadores apontam o próximo decênio como um de retomada de crescimento da carne bovina depois de décadas de resultados minguantes. Não podemos naturalmente sonhar com a década de 60 e parte da de 70 quando éramos a carne principal.  Os brasileiros costumam dizer que é preferível ser cauda de baleia a cabeça de sardinha. Hoje e nas projeções de largo prazo a carne bovina ocupa a terceira posição entre as vinte espécies terrestres que consumimos.

As carnes de frango e suína prevalecerão graças ao fato de que exigem menos recursos naturais em sua produção que a espécie bovina. Mas melhor do que a continuidade de crescimento, ainda que a ritmo discreto, vivemos momentos de câmbios acelerados entre os consumidores de um mundo googlecêntrico.

Nele surge o consumidor de renda em ascensão que incorporará a carne bovina à sua dieta, mesmo que com menor frequência e talvez representada por produtos elaborados de carne bovina. Por outro lado, o consumidor com mais condições de consumo abandona a cruzada dos ativistas que passaram talvez duas décadas pregando contra a carne vermelha. Esse consumidor tem uma menor preocupação com preços e maiores exigências com diferenciação, inovação, atributos e conceitos de carne bovina que o surpreendam. Esses dois segmentos e uma Ásia voraz nos permitem visualizar luzes no final do túnel. E desta vez não é um trem vindo no sentido contrário.

 

[1] Agricultura e Desenvolvimento Rural, disponível em inglês sob o título EU Agricultural outlook for the agricultural markets and income 2018-2030

Osler Desouzart

Atualmente membro da Diretoria Consultiva do World Agricultural Forum. Membro da equipe do The Sustainable Food Laboratory. Proprietário da companhia de consultoria, OD Consulting Planejamento + Estratégia.